Essa situação imediatamente remete, embora de modo reverso, à capacidade das artistas de materializar instâncias políticas, cujos sentidos dependem dos significados articulados entre os diversos trabalhos, que configuram um conjunto vivo, pulsante, questionador e inventivo dos inumeráveis caminhos da arte contemporânea. Sem temática pré-definida, a exposição mostra a utilização de formas expressivas diversas, que vão da pintura ao desenho à gravura; da fotografia ao vídeo, das novas tecnologias à concepção de instalações. A despeito de suas diferenças, tanto na construção cênica quanto no conceito inspirador de cada trabalho, há o desejo comum das artistas em transcender, por vezes, uma ordenação espacial que nos coloca frente a frente com mundos improváveis, alusões claras a uma realidade disforme, fluida, desigual.

Por isso, uma simples análise do que aqui se apresenta, reitera o mergulho das artistas em seu próprio ser, extraindo dalí a seiva criativa que termina por tocar e estrutura das coisas, aqueles pilares invisíveis, mas densos que a constituem. Tomando como paradigmas questões íntimas e coletivas, estas trinta e cinco mulheres elaboram, sem didatismo algum, certos valores simbólicos alusivos à vida em seu dinamismo constante. Ademais, o interesse por materiais e objetos diversos a exemplo do mármore, cobre, argila, tecido, madeira, arame, acetato e espelho lhes permitirão conferir novas leituras e funções aos artefatos do cotidiano. Promovem assim o corpo-a-corpo com a matéria primeira, trazendo com a conjugação de múltiplos elementos, a afluência de outros sentidos – além da visão, o tato e a audição, por exemplo. Tal vôo inaugural fez o francês Marcel Duchamp (1887-1968), em 1914, com seus ready-made. Ao deslocar os objetos de sua função utilitária, logrou por elevá-los à condição de obras de arte. Posteriormente, nos anos 40, o artista ítalo-argentino Lúcio Fontana (1899-1968) vai aprofundar a idéia de “espacialismo” incorporando à superfície da tela incisões, raspagens e perfurações além de criar ambientes iluminados com filamentos de neon. A idéia desta “arte ampliada” será explorada ainda nos anos 60 pelo grupo Fluxus, tendo o alemão Joseph Beuys (1921-1986) como destaque (5).

Finalmente, o campo contemporâneo será também ativado com realização de performances e a produção de vídeos que passam a ser uma parte essencial das obras elaboradas pelas diversas artistas. Diferentemente dos anos 70, quando a linguagem videográfica, apenas esboçada, iniciava seu caminho como extensão do projeto das artes plásticas no Brasil, no qual a idéia transgressora de quase-cinema de Hélio Oiticica é um exemplo, as artistas estabelecem, de maneira substantiva, uma dinâmica visual no desejo explícito de pôr à vista conexões existenciais muitas vezes desterradas e esquecidas. Se não buscam um estilo, também não querem trilhar paradigmas estéticos fixos, tendo que reinventar seus próprios caminhos a cada momento na vontade de remexer estes estados transitórios. É essa liberdade total de criação na concepção, na produção, na escolha do trabalho que vem à tona quando vemos esta mostra. Liberdade para livrar-se da postura rígida e sábia e colocar, em seu lugar, como queria Nietzsche, um estado de levitação.

Angela Magalhães

Nadja Fonsêca Peregrino

Notas

1. Enciclopédia Persona (excertos). Fellows of contemporary art, Los Angeles, 1993. É preciso lembrar aqui que no livro A hora da estrela (1977), sua autora Clarisse Linspector, aborda o embate entre o escritor brasileiro moderno e a condição indigente da população brasileira, sem deixar de lado a reflexão sobre a mulher.

2. Ronaldo Brito, em O moderno e o contemporâneo ( o novo e o outro novo). Arte Contemporânea Brasileira, org. Ricardo Basbaum, Marca D'Água Livraria e Editora, RJ, 2001.

3. No livro História das mulheres (edições Afrontamento, Portugal, 1991), os autores Georges Duby e Michelle Perrot apontam as bases da supremacia masculina destacando que a figura feminina foi explorada em distintos contextos, exibindo uma sutil e quiça deliberada contradição: as Deusas vivem no Olimpo das cidades sem cidadãs, a Virgem Maria é sacralizada mas quem intermedia a relação na terra são os padres, entre incontáveis representações que reforçam o caráter esteriotipado dos padrões sociais vigentes.

4. O movimento feminista liderado, em 1948, pelas norte-americanas Lucretia Mott e Elizabeth Stanton chega ao Brasil em 1853, encabeçado pela professora autodidata Nísia Floresta. Em seu texto Opúsculo humanitário, Nísia clama pela urgência da educação feminina, denunciando a opressão exercida contra as mulheres no Brasil. Por sua vez, Bertha Lutz (1894-1976) se engajará na luta pela conquista do voto e pela participação feminina na política. Ver, também, artigo Pisando no "sexo frágil", de Rachel Soihet, in Nossa História, ano I/nº3, janeiro de 2004, Fundação Biblioteca Nacional, RJ.

5. Ver Dicionário SESC A linguagem da Cultura, Newton Cunha. SESC/Perspectiva, São Paulo, 2003 Pg,.351.

 

Angela Magalhães e Nadja Fonsêca Peregrino iniciaram sua parceria de trabalho na Funarte. Em mais de 20 anos de trabalho, produziram cerca de 150 mostras fotográficas e algumas dezenas de curadorias. Além de premiações com a bolsa Rio Arte e Vitae, seus textos têm sido publicados no Brasil e no exterior.

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